Todos os anos, Brasília se transforma no grande palco do chamado municipalismo brasileiro. Prefeitos, vereadores, secretários, assessores e lideranças políticas desembarcam na capital federal para participar da tradicional Marcha dos Prefeitos, evento vendido como um espaço de debates, articulações e defesa dos interesses dos municípios. Mas, passada a euforia dos discursos, das fotos e dos corredores lotados, uma pergunta continua ecoando entre a população: o que realmente chega às cidades depois dessa mobilização?
É inegável que eventos como esse possuem importância institucional. O encontro aproxima gestores de ministérios, parlamentares e órgãos federais, além de abrir espaço para discussões sobre temas fundamentais, como queda de arrecadação, divisão de recursos, obras estruturantes, saúde pública e educação. O problema não está exatamente na existência da Marcha, mas na dificuldade de transformar participação em resultado concreto.
Em muitos casos, o que deveria ser um ambiente técnico acaba se tornando também uma grande vitrine política. Brasília sabe que prefeitos e vereadores movimentam as engrenagens eleitorais do país. São eles que estão na ponta, no contato direto com a população, sentindo diariamente os problemas reais das cidades. E justamente por isso, eventos como esses também se transformam em espaços estratégicos para fortalecimento de alianças, aproximações políticas e construção de futuras composições eleitorais.
A pergunta necessária é: os municípios estão sendo verdadeiramente ouvidos ou apenas cortejados politicamente?
Outro ponto que precisa entrar no debate sem hipocrisia é o custo dessas caravanas. Não são raros os municípios que enviam grandes comitivas para Brasília, incluindo prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, assessores, secretários, servidores e acompanhantes institucionais. Tudo isso financiado com dinheiro público: passagens aéreas, hospedagens, alimentação, diárias e deslocamentos.
E aqui não se trata de demonizar a participação política. Representar o município é importante. Buscar recursos é necessário. Construir pontes institucionais faz parte da função pública. O problema começa quando a população não consegue enxergar, de maneira clara, objetiva e transparente, quais foram os ganhos reais daquela viagem.
Quais projetos foram apresentados?
Quais recursos foram pleiteados?
Quais reuniões aconteceram?
Quais compromissos foram assumidos?
Quais resultados efetivos serão entregues ao cidadão?
Infelizmente, na maioria das vezes, o que chega para a população são apenas registros fotográficos, vídeos em corredores ministeriais e publicações genéricas falando sobre “importantes agendas em Brasília”. Muito pouco para um evento que custa caro aos cofres públicos.
Talvez tenha chegado a hora de transformar esse modelo. Cada município deveria publicar, após eventos como esse, um relatório público detalhado, acessível e transparente, contendo gastos, objetivos da viagem, reuniões realizadas, pautas discutidas e resultados alcançados. Mais do que prestação de contas burocrática, isso seria respeito ao cidadão que paga a conta.
O municipalismo precisa deixar de ser apenas discurso de auditório e se tornar prática concreta. O povo não espera apenas fotos em frente ao Congresso Nacional. Espera retorno. Espera solução. Espera compromisso.
Porque no fim das contas, a verdadeira marcha que interessa ao cidadão é aquela que leva desenvolvimento de volta para sua cidade — e não apenas boas imagens para as redes sociais.
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