Quando o castelo esquece o rio e a república acredita viver em um reino que ainda não percebeu sua ruina
Por: Alex Passos
Há quem diga que a política é um jogo. Outros garantem que ela é uma guerra. Eu continuo preferindo compará-la à água. A água não discute, não faz discursos, não promete. Apenas segue seu curso. Contorna pedras, vence barragens, muda de direção quando necessário e, sobretudo, nunca deixa de correr. O problema é que, de tempos em tempos, aparecem personagens convencidos de que podem cercar o rio, cobrar pedágio da correnteza e decretar para onde ela deve seguir. A História sorri. O rio também.
É exatamente essa sensação que a política tem transmitido nos últimos meses. Ruídos por todos os lados. Alianças que duram menos que um café quente. Adversários que almoçam juntos depois de passarem a manhã trocando farpas. Especulações que mudam antes mesmo da tinta secar. Interpretações jurídicas ao sabor da conveniência. Rumores transformados em manchetes. Manchetes transformadas em certezas. Nada disso é novo. A novidade é que agora todo mundo está assistindo. O palco continua o mesmo; a plateia é que deixou de ser figurante.
Há também uma curiosa transformação institucional acontecendo. Alguns prefeitos parecem reis absolutos. Certos secretários se comportam como duques que acabaram de herdar um feudo e, antes mesmo de aprender onde fica a porta do gabinete, já sonham com voos mais altos. Alguns vereadores agem como cavaleiros disputando um torneio cujo prêmio muda conforme a conveniência do dia. Há assessores que se enxergam como conselheiros da Coroa e existem até aqueles que acreditam exercer mais influência do que o próprio soberano. A República continua escrita na Constituição; em alguns gabinetes, porém, o regime ainda parece medieval.
E como toda velha corte, não faltam os arautos oficiais. Mudaram apenas as ferramentas. Antes anunciavam decretos em praça pública; hoje fazem isso por vídeos, áudios e manchetes apressadas. Alguns informam. Outros apenas aumentam o volume da própria opinião, convencidos de que falar mais alto é o mesmo que convencer melhor. A boa notícia é que o cidadão deixou de ser apenas espectador. Ele compara versões, pesquisa, questiona e já não compra qualquer narrativa embrulhada em papel dourado.
No meio desse cenário surgem os mercadores do reino moderno. Empresários que acreditam possuir um mapa secreto da política local e tentam vender bússolas para quem já escolheu o destino. Alguns são tratados como sábios indispensáveis. São convidados para reuniões reservadas, distribuem conselhos como quem entrega a fórmula para salvar o reino e, durante alguns minutos, parecem mover montanhas. O curioso é que, encerrada a conversa, seus conselhos permanecem sobre a mesa, ao lado da xícara de café vazia. Serviram mais para a fotografia do encontro do que para orientar qualquer decisão.
Também impressiona a elasticidade de certas interpretações. Há momentos em que a lei parece uma capa de chuva: protege enquanto serve aos interesses de quem a veste; quando deixa de ser conveniente, troca-se o tecido, o tamanho ou a costura. E quando a política já não consegue resolver os próprios impasses, corre ao Judiciário como quem procura o velho mago do reino para desfazer o feitiço que ela mesma lançou.
Enquanto isso, formam-se grupos, subgrupos, alas, movimentos e articulações que lembram exércitos prestes a travar uma batalha épica. Olham-se atravessado, ensaiam discursos inflamados, prometem duelos históricos... até que surge uma nova conveniência e todos descobrem, quase por milagre, que sempre foram aliados de longa data. A política talvez seja o único lugar onde pontes são incendiadas pela manhã e reinauguradas à tarde.
Mas existe uma curiosidade sobre os castelos que pouca gente percebe. Eles nunca foram construídos para durar para sempre. Foram erguidos para convencer seus moradores de que durariam. As muralhas protegiam muito mais o ego dos reis do que os seus reinos. O tempo, porém, jamais assinou tratado de paz com qualquer coroa. Derrubou impérios, apagou sobrenomes ilustres e transformou salões de baile em sítios arqueológicos. O tempo tem um hábito inconveniente: ele sempre vence.
Da mesma forma, há uma arrogância silenciosa entre aqueles que chegam ao poder. Acreditam que o rio corre por causa da ponte. Não corre. A ponte apenas atravessa o rio. O rio existia antes dela e continuará existindo quando a ponte for apenas uma fotografia esquecida em algum arquivo público. A História nunca perguntou quem ocupava o gabinete. Ela sempre perguntou quem permaneceu na memória do povo.
E aqui está talvez o maior equívoco da velha aristocracia republicana: imaginar que o poder pertence a quem o exerce. Nunca pertenceu. O poder é um empréstimo. O povo apenas entrega as chaves por algum tempo. Alguns devolvem esse patrimônio maior do que receberam. Outros precisam que o próprio povo faça a cobrança. Enquanto muitos disputam cadeiras, o eleitor observa. Em silêncio. E há algo que a política ainda demora a compreender: o silêncio do povo nunca significou ausência de julgamento. Significou apenas que o veredito ficou para o dia da eleição.
Talvez seja exatamente por isso que não exista motivo para tanto espanto. A política continua fazendo o que sempre fez: movimentando-se como um rio. Os ciclos começam, terminam e recomeçam. Nomes surgem, desaparecem e retornam. Governos passam. Grupos se desfazem. Novos grupos nascem acreditando que serão eternos. Nenhum será.
Porque nenhum castelo resiste quando esquece que foi construído sobre a margem, e não sobre a nascente.
E talvez a maior surpresa da velha aristocracia da República seja descobrir que nunca foi dona do rio.
Apenas ocupou, por algum tempo, as suas margens.
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