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| Foto: O Kotidiano |
Por: Alex Passos
A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou uma dimensão eleitoral que ultrapassa Brasília. Faltam 18 dias para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e a sessão de 15 de setembro deixou uma pergunta inevitável: até que ponto uma crise institucional consegue deslocar a atenção do eleitor das propostas para a disputa entre instituições e grupos políticos? A própria Agência Brasil registrou que a escalada da crise vem ofuscando o debate sobre os problemas estruturais e os programas dos candidatos.
No plano nacional, o episódio envolve o ministro Alexandre de Moraes, o ministro André Mendonça e as suspeitas relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O STF encerrou a sessão sem decidir se Moraes poderá ser investigado. O ministro Flávio Dino pediu vista e dispõe de até 90 dias para devolver o caso. Na prática, uma questão de enorme repercussão política permanece aberta justamente durante a reta final da eleição.
O impacto eleitoral ainda não pode ser tratado como fato consumado
Há, porém, uma informação que merece ser colocada acima do barulho das redes sociais. Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana apontou que a maioria dos eleitores afirma que a crise no STF não altera sua intenção de voto, enquanto as acusações envolvendo Moraes, segundo o levantamento, influenciam diretamente a decisão de apenas 4% dos entrevistados.
Isso não significa que o assunto seja eleitoralmente irrelevante. Significa que uma coisa é a repercussão política do caso e outra é medir quantos eleitores efetivamente mudaram de posição por causa dele. Em uma eleição polarizada, acontecimentos institucionais podem reforçar convicções já existentes sem necessariamente produzir uma migração maciça de votos.
Flávio Bolsonaro transforma o STF em eixo de campanha
Entre os principais candidatos à Presidência, Flávio Bolsonaro foi quem mais claramente incorporou a crise ao discurso eleitoral. No horário eleitoral de 15 de setembro, o candidato do PL utilizou um vídeo em formato de pronunciamento para atacar a atuação do STF e associar o episódio ao governo Lula. A estratégia é transformar a crise institucional em argumento contra o adversário e mobilizar o eleitorado que já demonstra rejeição à atuação da Corte.
Lula, por sua vez, tenta evitar que a crise seja transformada em uma associação direta entre seu governo e Alexandre de Moraes. O presidente afirmou que o STF precisa preservar sua credibilidade e defendeu que o presidente da Corte, Edson Fachin, impeça que a crise prejudique o processo eleitoral. A movimentação mostra que o tema deixou de ser apenas jurídico e passou a exigir respostas políticas do Planalto.
Outros candidatos também passaram a explorar o desgaste da Corte. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos estão entre os nomes que criticaram o STF ou defenderam medidas contra ministros, segundo levantamento da imprensa. O resultado é uma mudança na agenda eleitoral: questões como segurança, saúde, economia, emprego e educação continuam presentes, mas disputam espaço com uma crise institucional que domina o noticiário.
E o que isso significa para a Bahia?
Na Bahia, o efeito é diferente, mas o ambiente nacional inevitavelmente atravessa a disputa entre Jerônimo Rodrigues, ACM Neto e os demais candidatos. O levantamento Real Time Big Data divulgado em 9 de setembro mostrou Jerônimo com 45% e ACM Neto com 44% no primeiro turno, dentro da margem de erro de dois pontos. Ronaldo Mansur e Estevão apareceram com 1% cada. Foram entrevistados 1.600 eleitores entre 4 e 8 de setembro.
As campanhas, até aqui, continuam concentradas principalmente na disputa estadual. O mapeamento realizado pelo Bahia Notícias mostrou estratégias territoriais distintas: Jerônimo havia passado por 47 municípios até 7 de setembro, enquanto ACM Neto percorreu 11.125,1 quilômetros e esteve em 25 cidades. Ronaldo Mansur visitou 11 municípios.
A agenda desta quarta-feira (16) confirma essa lógica. ACM Neto tem sabatina, caminhada em Salvador, reuniões com lideranças municipais e ato em Castro Alves. Jerônimo programou carreatas em Madre de Deus e Candeias. Ronaldo Mansur participa de entrevista e reunião com lideranças de movimentos sociais em Lauro de Freitas. A campanha, portanto, segue tentando transformar presença física, comunicação e alianças locais em voto.
ACM Neto também mantém uma comunicação centrada na ideia de mudança, com segurança, planejamento, saúde, educação, infraestrutura e oportunidades como eixos apresentados em seu programa eleitoral. Jerônimo, por sua condição de governador e candidato à reeleição, carrega para a campanha a defesa do trabalho realizado pela atual administração e amplia a presença territorial. São estratégias diferentes para uma disputa que permanece numericamente apertada nas pesquisas disponíveis.
O alerta que fica para o eleitor
O eleitor baiano e brasileiro chega à reta final diante de um cenário em que fato, investigação, interpretação, propaganda eleitoral e opinião estão circulando simultaneamente. A crise do STF é real e tem consequências institucionais, mas uma postagem nas redes sociais não transforma automaticamente uma acusação em prova, assim como uma declaração de candidato não transforma uma pesquisa em resultado eleitoral.
O momento exige atenção redobrada. É preciso separar o que foi decidido do que ainda está sendo investigado, o que um candidato afirmou do que efetivamente aconteceu e o que uma pesquisa mediu daquilo que alguém gostaria que ela tivesse mostrado. A eleição está próxima, mas o voto continua sendo uma decisão individual. Em uma reta final tomada pelo ruído, talvez a atitude mais importante do eleitor seja justamente não permitir que o barulho escolha por ele.

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