A entrega de 136 novas viaturas à Polícia Militar da Bahia é, sem dúvida, uma notícia positiva. Viaturas significam mobilidade, presença policial e melhores condições de trabalho. O problema é que, diante do tamanho do desafio, o baiano já começa a perguntar se colocar mais carros nas ruas é suficiente para devolver às pessoas aquilo que deveria ser básico em qualquer sociedade: a sensação de segurança. O próprio governo baiano contabilizou redução de 13,1% nas mortes violentas em 2025, para 3.884 casos, mas o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com metodologia própria, registrou 5.473 Mortes Violentas Intencionais na Bahia no mesmo ano, colocando o estado na liderança nacional em números absolutos e com a segunda maior taxa do país.
E é justamente aí que mora a pergunta incômoda: se os investimentos são crescentes, por que o problema parece continuar maior do que a resposta do Estado? Em 2025, somente em equipamentos e materiais operacionais da PMBA, foram registrados mais de R$ 71 milhões em investimentos, incluindo 182 viaturas com proteção balística e 26 sem proteção, além de coletes, drones, armamentos e outros equipamentos. Em 2024, o orçamento do Sistema Estadual de Segurança Pública havia crescido cerca de 22,23%, aproximadamente R$ 1,42 bilhão. Ainda assim, um relatório do próprio governo apontou que, em 2025, foram executados R$ 92,4 milhões dos R$ 340 milhões previstos especificamente para ampliação e renovação da frota um déficit de quase R$ 250 milhões.
Enquanto o Estado apresenta números de operações, prisões, apreensões e novas viaturas, o cidadão enxerga outra realidade: territórios disputados, facções ampliando influência, comunidades submetidas ao medo e uma rotina em que sair de casa muitas vezes exige calcular riscos. E o problema não se resolve apenas com policiamento ostensivo. Enfrentar organizações criminosas exige inteligência, investigação, integração entre polícias, combate ao dinheiro do crime, controle de armas, sistema prisional eficiente e, principalmente, capacidade do Estado de impedir que o crime organizado ocupe espaços onde o poder público deveria estar. O dado mais desconfortável talvez seja este: as polícias baianas mataram 1.570 pessoas em 2025, o maior número absoluto do país, segundo o Anuário.
O Kotidiano não questiona a viatura que chega; questiona o resultado que precisa chegar junto com ela. Segurança pública não pode ser medida apenas pela quantidade de veículos entregues, policiais formados ou operações realizadas. O indicador que realmente importa está na porta de casa: é poder voltar para casa sem medo, trabalhar sem ser refém de territórios dominados e criar os filhos sem a sensação de que o Estado está sempre correndo atrás do crime. Se há investimento, estrutura e redução de alguns indicadores, mas o cidadão continua se sentindo encurralado, talvez seja hora de fazer a pergunta que ninguém deveria temer: onde exatamente está falhando a estratégia de segurança da Bahia?
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