O eleitor quer mudança, mas não aceita negociar as garantias democráticas que a Constituição nos deu.

Foto: O Kotidiano

Por: Alex Passos| Opinião

Lula chegou ao segundo turno com 2.224.965 votos a menos que Flávio Bolsonaro e saiu reeleito, com 51,75% dos votos válidos contra 48,25%, mais de 4 milhões de votos de vantagem, segundo o TSE. Nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar tinha vencido uma eleição presidencial desde a redemocratização, aponta a Exame. Eu penso que o resultado das eleições 2026 não pode ser lido pela metade, e foi isso que defendi na última terça-feira, no quadro O Kotidiano, no Bom Dia Simões Filho, programa apresentado por Jairo Mascarenhas na Rádio Simões Filho FM 87,9: o eleitor brasileiro mandou dois recados ao mesmo tempo. Quem escuta só um deles entendeu metade da urna.


O primeiro recado é de mudança, e ele não nasceu agora. O brasileiro flerta com isso desde 2014, quando Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por 3.459.963 votos, com 51,64% contra 48,36%. Quatro anos depois, escolheu Jair Bolsonaro, com 55,13% dos votos válidos contra 44,87% de Fernando Haddad. Digo sem rodeios: para mim, não foi uma escolha interessante para o país, e aquele período abriu feridas profundas que vão levar tempo para cicatrizar. Reconheço que mais da metade dos eleitores daquele segundo turno pensou diferente de mim, e é por isso que o recado de mudança precisa ser levado a sério por todos os lados.


Em 2026, esse recado veio claro já no primeiro turno: Flávio terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, e o PL terá 28 dos 81 senadores, a maior bancada do Senado no início de uma legislatura desde 1988, segundo a Exame. Se alguém ainda duvida de que o brasileiro quer mudar, que explique esses números. Então por que, no segundo turno, ele reelegeu Lula? Porque o segundo recado, o mais importante na minha leitura, é que o brasileiro não abre mão das garantias democráticas que a Constituição nos trouxe, a grande conquista do último século. Qualquer ameaça, por menor que seja, não cai bem aos olhos e aos ouvidos de uma sociedade que, mesmo dividida, não admite perder direitos que consolidam a nossa jovem democracia.


Por isso digo que as urnas disseram sim à esquerda: porque ela ainda, repito, ainda, é a parte do espectro político que levanta essa bandeira e nos dá certa tranquilidade quanto a isso. Isso não tem nada a ver com os programas sociais, dos quais ela se orgulha e diz ser a única a manter. Também não é cheque em branco: a esquerda precisa melhorar o que entrega nos seus governos, sobretudo em segurança, mas, até por sobrevivência, precisa garantir a permanência das conquistas democráticas, o que inclui a sagrada e inegociável liberdade. Quem votou em Flávio, os 48,25%, pode ler o resultado de outra forma, e é um direito, mas eu pergunto: se o brasileiro quer mudar sem abrir mão da democracia, quem vai ter a capacidade de oferecer as duas coisas ao mesmo tempo?

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